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Tempo de guardar sapatos

Tempo de guardar sapatos

Leia abaixo três dos poemas de "Tempo de guardar sapatos", de Letícia Gomes: 

 

Teus tons

 

Encontro azul perfumado de brisa É som ou sol O que encolhe as roupas no varal? Beijo na bochecha em sinal de despedida Velas voam Como cartas roubadas a um andarilho É azul o meu olhar quando encontra os teus tons Tempestade em mar calmo Fez aquela tarde Navega sem pressa nos meus detalhes E descobre o ritmo Do meu bater de asas Do meu pisar calçadas Do meu remar sem fim Não tenho porto de chegada.

 

***

 

Travessia

 

As portas fechadas do vagão aprisionam sonhos É o olho que viaja Não se atrapalha em mar de gente Braços, bolsas, cotovelos Paradas abruptas assentam o conteúdo das mochilas Janelas fechadas limitam sons É o pensamento que atravessa Sei de cada estação do ano as consequências De cada fase da lua o envolvimento Do vento na cara de cada manhã sei o destino Conheço os habitantes do céu sem chamá-los astros A multidão que me cerca Sufoca palavras soltas Enjoo de vaivém Olhar estrelas, saber do vento, dos relógios, movimentos Esquecer tudo Bater cartão O cotidiano dentro e fora do vagão Estrangula-me o voo.

 

***

 

Quando fui sol Sentia que podia ser luz Mas foi ensinada a ser sombra Sabia que queria ser só Mas de tanto ouvir, achou que precisava de um braço que a amparasse Sonhava conhecer o mundo, Mas o seu destino de todos os dias eram as paredes da casa Não fale alto Não brilhe Não seja exuberante Não se destaque Feche essas pernas Não gargalhe “Comporte-se como uma mulher” E o que é ser mulher? Ela questionava E por não ser esta mulher... Ela foi só Foi sol Gargalhou, brilhou, gritou Correu, trilhou, destacou-se E contou tudo isso a outras mulheres Juntas: Elas escreveram poemas Entoaram cantos Publicaram livros Ocuparam espaços E foram: sós, juntas, sol, lindas, livres: Vivas!

  • Sobre a autora

    Márcia Letícia vive na Amazônia às margens do rio Madeira onde o sol se põe mais lindo, mas cresceu num pequeno povoado no interior do Paraná chamado Malu – que bem poderia ser um cenário de narrativas fantásticas. É doutora em Letras (FURG), mestra em Direito (FURG) e mestra em Letras (Unir). Gosta muito de ouvir e de contar histórias. Viaja por caminhos, dentro dos livros, nos cenários dos filmes e no olho das pessoas. Gateira, feminista, professora durante a semana e cantora de karaokê no tempo livre, também gosta de debates sérios e sinceros em mesas-redondas e em mesas de bar. É autora de “Migração, refúgio e direitos humanos – um olhar para os movimentos migratórios contemporâneos” (2017), de “Pelos caminhos da história e da ficção – a estrada de ferro Madeira-Mamoré na escrita romanesca de Márcio Souza” (2021) e de "Este livro já foi um caderno" Editora Caravana (2021).

  • Informações do produto

    Capa comum: 56 páginas

    Formato 14x21

    Editora Libertinagem 1ª edição

    São Paulo, 2022

  • Legal saber

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R$ 40,00Preço
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