Selvática

Selvática

Leia abaixo o conto "Pânico", do livro 'Selvática', de Maia Ferreira.

 

1. Pânico

Gostava de observar a luz que entrava nas frestas da pequena janela. Morava no décimo quinto andar, em um prédio de arquitetura moderna e aluguel impronunciável. Estar ali era seu sonho e nunca entendeu por que que alcançar o topo da cidade fazia-a sentir-se um elefante em uma jaula: claustrofóbica, cansada, grande, desajeitada, estranha, fracassada. Vivia a quinze minutos do centro em feriados e a quarenta e cinco em dias úteis.

Levantou atrasada naquela manhã, assustada, sempre com o celular à mão. Poderia perder o projeto, poderia brigar com o chefe ariano temperamental, poderia ser demitida perderia a casa abandonaria as aulas de yoga as noites com os amigos, poderia voltar para o interior, a casa dos pais, o gato, o cheiro de terra em dias de chuva, poderia voltar? Pânico. Blusa-calça-café-desespero-cabelo-sapato-celular-chave-dinheiro.

“Peguei tudo?”

Bateu a porta do apartamento, xingou o elevador, apertou freneticamente o térreo. Ele parou no sexto andar, o cara do 203 entrou, “era Marcelo ou Roberto?” sorriu desajeitada, ele retribuiu. Ela poderia jurar que o tinha visto no aplicativo ontem à noite. Foto sem camisa na frente do espelho. Desencanou. Colocou os fones, bloqueou o celular e viu de relance seu reflexo, seu? O elevador apitou: térreo. O porteiro acenou com a cabeça, não houve tempo para retribuir o bom dia apressado. Avistou o ônibus ao atravessar o farol, acelerou na corrida, o ônibus parou e ela conseguiu entrar. Respirou. “Onde está o cartão?” O cobrador olhava-a impaciente revirar a bolsa “Onde está esse maldito cartão?” Blusa de frio chicletes guarda-chuva carregador de celular chinelos “Aqui, aqui está!” Passou a catraca e se sentou em um assento livre não preferencial, tinha acordado a menos de uma hora e já se sentia torturada em pensar na possibilidade de ceder seu lugar. No terceiro ponto, um rapaz entrou no ônibus: pele branca, altura mediana, parecia ter acabado de sair da adolescência, boné para trás, ouvia música no celular sem fones. Ela tremeu, ele colocou a mão no bolso para tirar algo. Pânico. Assaltaria o ônibus a assaltaria levaria todo o seu dinheiro seu celular novo que ainda estava na terceira parcela talvez atirasse nela talvez roubasse a bolsa inteira que. O garoto tirou a carteira do bolso, pagou, passou a catraca, sorriu para ela “com licença” e se sentou ao seu lado. Ela fingiu calma. O ônibus lotou no ponto seguinte, ele cedeu seu lugar a um senhor. Agora ela se sentia envergonhada, abaixou a cabeça e aumentou o volume. Carros, pessoas, lojas, árvores. A cidade que nunca dormia despertava cinzenta pela janela do ônibus. Ela desceu em seu ponto, atravessou dois faróis e entrou no metrô. Tinha ainda três estações e quinze minutos para chegar ao trabalho. Encostou-se à porta e olhou para uma das TVs daquele vagão: “Virgem: Ótimo dia para assuntos financeiros.” Sorriu, “espero que sim”. A porta abriu, ela saiu correndo em direção à escada rolante. Não entendia qual doença fazia com que as pessoas não deixassem a esquerda livre. O salto batendo nos degraus, o coque do cabelo se desfazendo em pequenas mechas, o desespero ao atravessar os faróis as pessoas a bagunça as buzinas a vida. Passara avulsa pela cidade, que de tão familiar tornara-se muda. Entrou no já nem tão grande prédio espelhado com cinco minutos de atraso, um recorde. Passou pelas catracas, pelos porteiros, pelo elevador até chegar ao escritório onde trabalhava. Jogou a bolsa na cadeira, ligou o computador, pegou café, releu relatórios e foi para a tão esperada reunião. Eram sócios americanos, ela teria que falar em inglês. Pânico. Cinco anos de curso de línguas, alguns namoros pela internet e um intercambio, ela pensou: “você consegue”, e eles se interessaram tanto por suas pernas quanto por seu fluente e impecável inglês, mas ela fez seu trabalho com toda a dignidade que ainda lhe era cabível e saiu para almoçar. Tinha uma hora para comer, escolheu um fast food na outra esquina, pediu o de sempre. “Débito ou crédito?” perguntou a atendente “Crédito” sorriu e digitou a senha “Desculpe, deu transação não aceita”. Pânico. Em questão de segundos listou mentalmente tudo o que comprara naquele mês: botas novas, livros, supermercado. “Vou passar novamente, a máquina está com problemas” Ela sorriu aliviada ao ver a nota ser cuspida da máquina de cartões. Pegou o lanche, sentou-se, comeu. Fumou um cigarro enquanto conversava com o caso semanal por WhatsApp. Conferiu o Facebook, tuitou sobre o clima e voltou para a empresa. Escreveu relatórios, descobriu que a Ana ficou com o Renato e que o chefe estava de caso com o novo assistente de TI, contou sobre sua vida sobre a nova banda irlandesa que conheceu no barzinho canadense que foi depois de um encontro ruim no restaurante italiano que abriu dali a duas quadras e o seriado britânico que vira compulsivamente em suas quatro temporadas em apenas um final de semana. Faltando cinco minutos para ir embora, desligou o computador, ajeitou o cabelo, reorganizou a mesa, tomou outro café, conferiu a agenda, fez suas últimas anotações e pegou o crachá. Quando já estava atravessando a rua para chegar ao metrô lembrou-se do celular sobre a mesa, carregando. Pânico. Sentiu-se amputada, e com desespero voltou ao prédio. Catraca porteiros elevador escritório mesa celular. Respirou. Na volta para casa correu nas escadas, não esperou o próximo metrô, amaldiçoou o mundo ao perder o ônibus que estava parado no ponto. Sentou-se no ponto, infeliz, por ter que esperar o próximo. O telefone tocou: “Alô, mãe? Estou com saudades sim eu sei comi sim claro quando vem me visitar? Eu não acredito, ela grávida de novo? Tudo bem, mãe, eu te amo, tchau”. Sentia falta dos pais, é claro, mas desaprendeu a falar ao celular e por isso resumiu a conversa com a mãe para que sobrasse tempo para. Para quê? O ônibus chegou. Gastou mais tempo que o de costume para chegar em casa, a avenida tinha sido fechada por uma manifestação. Não entendia por que aquelas pessoas não iriam arrumar o que fazer em vez de ficar gritando no meio da rua. Quer mudar o mundo? Arranje um emprego. Trocou o salto alto pelos chinelos. Desceu do ônibus no meio da chuva, abriu o guarda-chuva, atravessou o farol, entrou no prédio, cumprimentou o porteiro, entrou no elevador e apertou o quinze. Ao chegar ao pequeno apartamento, sentiu-se em casa. Jogou as coisas sobre o sofá, ligou a TV, abriu o notebook e colocou uma pizza congelada no forno. Estava finalmente em casa e poderia descansar. Poderia? Comeu a pizza em duas bocadas, postou no Facebook toda a sua indignação para com o governo desse país atrasado e burro, reclamou da mais que medíocre novela e trocou de canal assim que subiram seus créditos finais, “Não sei como conseguem assistir isso”. Desatenciosa do resto da programação passou o resto da noite de amores com o notebook. Quando percebeu eram três da manhã. Pânico. Acordaria às sete e meia no dia seguinte. Fechou o notebook tomou banho colocou o pijama arrumou a cama se deitou. Lentamente fechou os olhos e se viu inundada de pensamentos. Pânico.

 

 

  • Informações do produto

    Capa comum: 64 páginas

    Formato 14x21

    Editora Libertinagem 1ª edição

    São Paulo, 2022

  • Sobre a autora

    Maia Ferreira nasceu em Carapicuíba em 1993. É escritora, educadora social e contadora de histórias. Estudou Letras na Universidade de São Paulo e publicou o conto "Noite das Garotas" na Antologia Companhia das Palavras. Selvática é seu livro de lançamento.

R$ 38,00Preço