O tempo e o pensamento, de Elias Costa
Leia abaixo dois poemas de "O tempo e o Pensamento", de Elias Costa:
O coito
Clareou.
O cenário era exatamente este. É claro que estava escuro (você não percebeu).
Pássaro na janela... gaiola aberta (não direi nome para não rimar).
Voou.
Não quero poesia difícil. Quero poesia livre. Mas ela ainda nem nasceu! Nascerá ela nos campos ou no concreto?
Luz e sombra: Rembrandt, Caravaggio... Minha poesia terá essa humanidade? Terá carne?
Entre um gemido e outro, numa cópula descarnada, geraremos a poesia.
Instantes depois...
Os dois corpos já não estão
(Ah, esse estar e não estar!). A dicotomia da eternidade... a linha paralela do to be em Shakespeare.
Olhar o cenário pós-coito, intacto, exatamente como ficou, remete-me ao desejo da noite anterior...
Retornar ao cenário é voltar à cena, onde tudo aconteceu... O delírio em apenas três atos: três posições (começo, meio e fim).
O pássaro desaparece ao longe
Escureceu.
***
Infância
Infância! Vai não! Por favor, vai não! E se te perderes? E se te arrependeres? Se não compreenderes a razão; se te magoares por não encontrar explicação? Infância! Vai não! Por favor, vai não! O futuro é incerto. Vou ter que fazer escolhas, escolher sozinho em meio ao pavor de errar. Por que não te escondes em mim? Vem comigo por essa estrada da vida sem fim! Infância! Vai não! Por favor, vai não! Não te escondas nessa cortina de nuvens. Não acenes com esse gesto de despedida... És ainda tão criança! Infância! Vai não! Por favor, vai não! Não vás para esse mundo de sonhos; de musas, de fadas...
11
De Dorothy, de Sofia, de Alice, de Lucy. Leva-me então, já que não posso ficar. Se já não sei se sou eu quem vai, se tu quem ficas. Se quando te vejo distante, estás além ou aquém... Só te peço que não apertes este coração com a saudade... Infância! Vai não! Por favor, vai não!
São Paulo, (manhã de um domingo nostálgico).

