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O barro onde o jabuti se deita, de Arthur Ledine

O barro onde o jabuti se deita, de Arthur Ledine

Leia abaixo dois poemas de "O barro onde o jabuti se deita", de Arthur Ledine:

 

Bufo quotidianus


Coaxa, sapo, que tou a escutar,
coaxa ou aprende a falar como nas
Antilhas para me trazer o oceano.


Na calha do rio Pardo, nenhuma gota
desliza incólume pelos canaviais.


Às favas com curvas de nível e o asfalto das
vicinais suburbanas palitadas de postes.


O sapo coaxa mas é minha lágrima
que vai passar por todas essas hidroelétricas
que meu avô ajudou a construir.


Existe coisa mais desnecessária que Jupiá?


No centro-sul, é claro.
No Pará, Belo Monte.
Na Bahia, Sobradinho.


O sapo vai a rodoviária e é
interpelado por um gentleman fétido
solicitando ajuda para inteirar uma marmita.


Ele veio de Araraquara e tem um
caminhão de grama para descarregar,
além de uma equipe pra alimentar.


É sexta-feira santa.


Coaxa baixo para não me acordar.
Chorei a noite inteira sem saber porque e
preciso descansar antes de picar cartão.


Não entendo nada que eles falam na rádio, ouço guitarras.


O ônibus como sempre lotado de
almas perdidas aos parafusos.

 

***

 

Anáfora


Sobre mim um viaduto
cujas luzes não me deixam dormir,
corre sob a cama um rio levando
embora sentimentalidades ingratas.
Ninguém vai ouvir se eu chorar,
mas meus olhos permanecem secos.


Como ontem eu me lembro de
cada palavra não dita nas salas
escuras onde me escorraçaram.


O viaduto sobre mim, e
luzes que dilaceram a noite não
me deixando dormir nadinha.
Já sob mim um rio,
que corre levando embora
sentimentalidades ingratas.
Eu sei que ninguém vai me ouvir chorar,
mas meus olhos teimosos continuam secos.


Cada palavra maldita, cada
sala escura onde me escorraçaram,
lembro como ontem.

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