Fita isolante corpo mutante

Fita isolante corpo mutante

"Monólogo Poético 2: Aterrá

 

Ao respirar sinto cada gota de estrela,

que pinga e pinga eternamente dentro de mim,

não sei se penso ou se compartilho

uma ideia morta de sentimentos outros que não os meus.

 

Talvez eu ainda esteja viva,

talvez tenha me tornado algo maior do que eu possa imaginar.

Abro as cavidades oculares,

causando alguns terremotos,

a extinção de uma espécie,

e uma catástrofe nuclear.

 

Ser um planeta é um trabalho árduo,

tem que está sempre girando,

não tem dia pra descansar.

 

Aí cê modifica um pouco o cabelo,

e já muda toda uma espécie.

Não tenho nem paciência pra pensar nisso direito,

não tenho nem tempo,

quanto maior  a massa,

mais devagar o movimento,

e os outros minisseres em cima de mim

ainda acham tudo tão ligeiro…

 

No dia que chegaram os Homo sapiens foi cansativo, viu?

Começaram a se sentir no domínio de tudo,

tomaram o ar pra si, domaram o fogo, e pum em alguns segundos,

eu tava cheia de luz, cheia de gente, e virei fumante.

Até porque né, quem não viraria,

com bilhões de vidas em crescimento constante?

 

Só a tensão de pensar que daqui a pouco tudo vai explodir,

e ninguém vai lembrar de nada, me faz rir,

o sol ali gritando e ninguém ouve, ele falou que ia surtar,

Saturno virou a cara, Júpiter estirou o dedo,

e ficaram lá, todos eles fingindo que não tem vida,

aproveitando que não foram habitados,

e me tratando como uma criança cheia de caspa e piolho.

Nossa, até abro espaço para inveja.

 

E esses piolhos aí que se chamam humanos,

vivendo uma grande ilusão de poder,

quando na verdade, eles tão passando a maior vergonha,

só sinto de segundo em segundo,

umas explosões, uns desmatamentos,

tudo por causa de um sistema falido,

que tenta padronizar tudo em um estilo de vida,

onde um ou dois deles ganham algo de positivo,

e o resto sofre calado, que engraçado…

 

Eu acredito que daria tempo

até para construir uma máquina de estabilização solar

se eu tivesse adquirido o pensamento coletivo,

e o trabalho social, que eles conseguem ter,

mas preferiram gastar tudo em uma espécie de autodestruição mútua,

enfim, raça suicida.

...

Agora chegou o momento,

o sol ta prestes a expandir,

Plutão tá tremendo, tadinho,

vai ser o que mais vai sentir…

O último né, nem quero intervir.

 

Ainda bem que tava de costas viradas,

mas vi o desespero de Marte

gritando e gritando pra mim,

fechei o olho, matei outros milhares,

e só senti. O Fim.

 

Obrigada, criaturas tolas,

por acharem que um dia encontrariam a infinidade,

e ficarem por tanto tempo vivendo de saudade,

será que por um momento cês pensaram, em só se deixar sentir?

 

Ah, e eu me chamo Aterrá

apesar de todos pronunciarem sem o acento."

  • Sobre a autora:

     Alice Cavalcante de Andrade, conhecida artisticamente como Lama, Nascida em Alagoinha e residente em João Pessoa - PB, é Travesti preta, escritora, graduanda em Serviço Social, slammer, performer e faz música. Estudante da Universidade Federal da Paraíba compõe o projeto de extensão Cine Trava (@cine_trava), onde exerce funções de organizadora, curadora, poetisa e tudo mais que a arte lhe possibilite ser e fazer acontecer nesse campo da Multiarte dissidente.  Após expor suas poesias e textos em sites como o medium e o instagram, performar em Slams online e compor apresentações dentro e fora da academia com a Cine Trava, em 2021, Lama lança seu primeiro livro de Poesias,  o Da Lama ao Caos (premiado no edital Hermano José pela Lei Aldair Blanc da Paraíba), que compila a arte referência de todos esses lugares em que ela habitou e habita. Dentro desse processo de se encontrar na fala, no grito, na performance e na escrita. Lama não só usa seus textos transcritos, mas também tem um projeto em cantá-los, e por isso ela coorganiza o Selo Musical Rasga Mortalha Rec., juntamente com Semente Elétrica, Vultra e Lunga, que é um projeto que visa ressaltar essas identidades únicas da cena Queer Paraibana, e que tem como seu primeiro projeto a organização da coletânea Gárgula, da qual ela fez parte, como organizadora e compositora.

  • Informações do produto:

    Capa comum: 80 páginas

    Formato: 14cm x 21cm

    Editora Libertinagem: 1ª edição.

    São Paulo, 2022

R$ 35,00Preço