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Ensaio para Alice

Ensaio para Alice

Leia abaixo três poemas de "Ensaio para Alice", de Daniela Lopes:

 

se ainda fosses tu a noite


tua boca muda ainda
me confidencia miúda
os ardores que sente
quando me beijas
ponteiros desertores
congelam no tropeço
dos segundos
expondo línguas que
quentes
rentes
aderentes
logo se emaranham
e se enroscam
entre si gozam
na adormecência do tempo

 

***

 

germinar


e seu corpo que era tão pálido.
seus pés sempre tão leves
queriam levá-la.
não mais lhe apetecia flutuar.
nauseava preferindo chão
paralelizando o horizonte.


mas quis subir árvore.
felina que parecia não negava salto
e grama fresca entre as garras sujas.
dormiu a ganhar tempo.
e quando acordou chuva... chorou.
gotas doces e salgadas num só corpo.


afundava nelas.
desejava plantar-se.
enraizar terra nutrida de vida.
solo pulsante de água e calor.
corria dor a seiva tomando-lhe artérias.


ela agora era caule.
verde, ventre, vertendo
a força que lhe rasgava em broto.
o broto que lhe abria em flor.

 

fazia sede.
precisava casa.
carecia germinar.

 

***

 

do mel à cor


um desnudar
paisagens que
se confundem e se
fundem. em corpo
vazado vagando
no rastro da luz.


formas de prata
sob a parábola
lunar que se
precipita. em que
pese a trajetória
côncava do arco


daquelas pálpebras
de olhos amendoados
e nus. somos nós


amor que arde.
pontas dos dedos
dormentes da carne
às unhas desfeitas.
até a noite ir dormir


eu ficarei na vigília
enquanto sua. mirar
o rufar das asas
daqueles cílios.
foram longe. de nós
desfeitos. laços nus.
em abraço

  • Sobre a autora:

    Daniela Lopes ou Dani Lopes
    Filha de Cabo Frio/RJ, como diriam os mais velhos. Parida por Mary
    Helena em 74, crescida na Praia do Forte e no terreiro de umbanda da sua vó-
    mãe, Dona Assunção. João Gabriel, vulgo Jango, seu pai, conheceu lá pelos
    30, mas isso é outra história. Desde pequena desenhava, mas escrever, só na
    adolescência, quando sonhava acordada. Formada em Serviço Social pela
    Universidade; em esposa e mãe pela família; em artista pela sensibilidade; em
    deusa mulher pela ancestralidade. Concursou-se Servidora Pública com muito
    orgulho, e trabalhou a maior parte do tempo na cultura de sua cidade.
    Em Niterói chegou casada, recém-formada e com as crias pequenas.
    Anos depois, a vida levara o casal para caminhos diferentes, mas o vínculo do
    cuidado permanecera. Desembarcou na Secretaria das Culturas em 2015, e
    fez escala pelo Museu Janete Costa de Arte Popular. Logo levantou voo e, em
    meio a muita turbulência, desceu no Ceam Neuza Santos – Centro
    Especializado de Atendimento à Mulher em situação de violência, trabalho de
    muito aprendizado. No início de 2022 alçou novos voos e foi pousar na
    Biblioteca Parque de Niterói.
    Das aventuras nesta terra de Araribóia, nasceu a fiapo - microempresa
    de peças artesanais, e bateu forte o coração na bateria do bloco Saias na
    Folia. Em meio a saraus e militâncias, estava o Coletivo de Mulheres Poetas de
    Niterói e, quando viu, já vinha surgindo VENTRES, livro coletivo com suas
    ilustrações e poemas, junto com poemas de mais 18 poetas mulheres potentes.
    Das escrevecências acabou tomando gosto, e iniciando, ainda sem perceber,
    uma nova caminhada de escritas e vivências.
    Dani Lopes aprendeu a falar, desenhar, cantar, escrever, criar com as
    mãos, e trabalhar o corpo inquieto no teatro. Em quase tudo é autodidata e, em
    outros quase tudo, curiosa e inconformada - a mente, não consegue domar.
    Escreve porque precisa curar dores e fechar feridas, mas a poesia é por
    demais para ser só remédio; transcende a escrita, a fala, o corpo e voa por aí.
    Depois de parir ensaio para alice, plantou a semente de um novo projeto,
    dessa vez, em verso e prosa.

  • Informações do produto:

    Capa comum:  108 páginas

    Formato 14x21

    Editora Libertinagem 1ª edição

    São Paulo, 2022

  • Legal saber:

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