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Corpo d'água: a mulher, o baile

Corpo d'água: a mulher, o baile

Leia abaixo dois dos poemas que compõem "Corpo dágua: a mulher, o baile", de Naíssa Raj:

 

Rebento

Não tenho medo de morar à porta do mar pelo risco de suas inundações  tenho medo que ele entre em minha casa sem bater em minha porta alvoroçado, ansioso, destrutivo  espero pacientemente que venha sim mas que chegue aos poucos  que mande suas espumas sutis  para estourar as pequenas agudas bolhas nos  meus pés que, ao abrir, molhem a ponta dos meus dedos acariciando minha solidão  que a água salgada entre e seja bem-vinda que conheça aos poucos cada cômodo e carregue em cada tijolo  cada pedaço da dor que construí  que desmorone a base de toda sua solidez  que suba em meus joelhos, camas, sexo,  cadeiras, janelas me tirando do repouso terno da eterna vigília em que vivo que cheire meu pescoço, salobro, morno e me tire pra dançar só assim, começarei o baile que tanto esperei porque sempre amei dançar e dançar é voar imersa na água   liberta da casa corada de mundo novo

 

* 

Reentrâncias 

Tenho admirado muito as mulheres sozinhas que moram em pequenos apartamentos  de cerâmicas brancas que desfizeram dos amores depositados  em objetos para  sentirem-nos apenas em relicários da memória  que cultivam o vazio líquido de sua morada

adoro acordar e me deparar com suas fotos de  xícaras de chás  e pernas estiradas na cama de um quarto sempre  límpido  sua seguridade de não esconder as partes do cor po que falam tanto do tempo quanto da resistência  aos padrões

os apartamentos tão claros  e as cortinas transparentes  sempre voando para invadir um canto das fotos  por trás do sorriso as pequenas partículas de mimos consigo  espalhadas por todos os detalhes  de filtros  e roupas  e respiros  

as mulheres sem filhos as de filhos que só existem em outras realidades  as que se bastam e se diluem na cama no fim do  dia  em taças de vinhos  ou xícaras de ar  

  • Sobre a autora:

    Naíssa Raj, nascida em 31 de maio de 1981, nas águas de Minas, e residente nas da Bahia, é poeta, mãe, musicista e professora doutora em linguística. Publicou artigos e capítulos de livros sobre linguagem, música e sentidos na canção brasileira. Seus poemas encontram leitores por meio das redes sociais, como o instagran @naissaraj. Escreveu durante seus quarenta anos de vida este livro, que agora sai do corpo de água para o corpo do papel.

  • Informações do produto:

     

    Capa comum: 88 páginas

    Formato 14x21

    Editora Libertinagem 1ª edição

    São Paulo, 2022

  • Legal saber:

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