Corpo d'água: a mulher, o baile

Corpo d'água: a mulher, o baile

Leia abaixo dois dos poemas que compõem "Corpo dágua: a mulher, o baile", de Naíssa Raj:

 

Rebento


Não tenho medo de morar à porta do mar
pelo risco de suas inundações 
tenho medo que ele entre em minha casa
sem bater em minha porta
alvoroçado, ansioso, destrutivo 
espero pacientemente que venha sim
mas que chegue aos poucos 
que mande suas espumas sutis 
para estourar as pequenas agudas bolhas nos 
meus pés
que, ao abrir, molhem a ponta dos meus dedos
acariciando minha solidão 
que a água salgada entre e seja bem-vinda
que conheça aos poucos cada cômodo
e carregue em cada tijolo 
cada pedaço da dor que construí 
que desmorone a base de toda sua solidez 
que suba em meus joelhos, camas, sexo, 
cadeiras, janelas
me tirando do repouso terno
da eterna vigília em que vivo
que cheire meu pescoço, salobro, morno
e me tire pra dançar
só assim, começarei o baile
que tanto esperei
porque sempre amei dançar
e dançar é voar imersa na água  
liberta da casa
corada de mundo novo

 


Reentrâncias 


Tenho admirado muito as mulheres sozinhas
que moram em pequenos apartamentos 
de cerâmicas brancas
que desfizeram dos amores depositados 
em objetos para 
sentirem-nos apenas em relicários da memória 
que cultivam o vazio líquido de sua morada

adoro acordar e me deparar com suas fotos de 
xícaras de chás 
e pernas estiradas na cama de um quarto sempre 
límpido 
sua seguridade de não esconder as partes do cor
po
que falam tanto do tempo quanto da resistência 
aos padrões

os apartamentos tão claros 
e as cortinas transparentes 
sempre voando para invadir um canto das fotos 
por trás do sorriso
as pequenas partículas de mimos consigo 
espalhadas por todos os detalhes 
de filtros 
e roupas 
e respiros  

as mulheres sem filhos
as de filhos que só existem em outras realidades 
as que se bastam e se diluem na cama no fim do 
dia 
em taças de vinhos 
ou xícaras de ar
 

  • Sobre a autora:

    Naíssa Raj, nascida em 31 de maio de 1981, nas águas de Minas, e residente nas da Bahia, é poeta, mãe, musicista e professora doutora em linguística. Publicou artigos e capítulos de livros sobre linguagem, música e sentidos na canção brasileira. Seus poemas encontram leitores por meio das redes sociais, como o instagran @naissaraj. Escreveu durante seus quarenta anos de vida este livro, que agora sai do corpo de água para o corpo do papel.

  • Informações do produto:

     

    Capa comum: 88 páginas

    Formato 14x21

    Editora Libertinagem 1ª edição

    São Paulo, 2022

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