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Convivências: no epílogo de uma pandemia, de Norberto Presta

Convivências: no epílogo de uma pandemia, de Norberto Presta

Leia abaixo um trecho de Convivências: no epílogo de uma pandemia, de Norberto Presta:

 

2Na segunda-feira seguinte àquele domingo de abril, Raúl estava especialmente mal-humorado. Decidiu roubar duas cartelas de Alprazolam, plenamente consciente do risco. Levar alguns comprimidos de remédios vencidos era algo que fazia há tempos, mas subtrair produtos ainda à venda — prontos para serem comercializados — era diferente. Mais perigoso. Aquele dia, no entanto, ele não se importava com nada e colocou o ansiolítico no bolso. A impossibilidade de se comunicar com Beatriz na noite anterior, somada à ressaca de uísque e peixe cru, o mergulhou em um estado de apatia generalizada. Na farmácia, o responsável, ao vê-lo tão angustiado, ofereceu mais de uma vez durante o dia que ele fosse para casa descansar.

Jaime, o encarregado, sentia por Raúl uma mistura de compaixão e admiração em igual medida. Era filho do farmacêutico e essa era a única razão pela qual ocupava a posição de responsável pelo negócio. Ele se sabia medíocre e privilegiado, e, sendo Raúl uma pessoa tão inteligente quanto desafortunada, percebia seu empregado como um reflexo de si mesmo, sua imagem invertida, seu oposto; alguém a quem admirar e ajudar. Por isso, fazia vista grossa quando Raúl furtava algumas pílulas dos medicamentos destinados ao descarte.

Na rua, Raúl colocou duas pílulas de Alprazolam na boca e começou a andar de olhos fechados, buscando ver outra realidade enquanto atravessava a cidade sem tocá-la e sem ser tocado. De fato, as pessoas já não se tocavam, acostumadas a manter uma distância prudente umas das outras. Era uma época em que praticar qualquer tipo de relação sexual significava colocar a vida em risco. O uso de preservativos se tornara absolutamente essencial; alguns usavam luvas e até evitavam os beijos.

Fechando os olhos com um tipo de pílula na boca, Raúl conseguia despertar outro nível de percepção que o libertava do uso da visão, permitindo-lhe se observar por dentro, ao olhar para o que realmente importava. Ele podia usar opioides, depressivos do sistema nervoso central, diversos estimulantes, analgésicos de todos os tipos; às vezes simplesmente enchendo a boca com paracetamol. Não importava, o que contava era manter as papilas gustativas ocupadas dissolvendo químicos, concentradas em desfazer os produtos farmacêuticos que diariamente organizava nas prateleiras da farmácia, que arrumava cuidadosamente e distribuía apressadamente às pessoas que apresentavam receitas autênticas ou falsas—isso não era de sua conta, nem de Jaime, nem do pai de Jaime, nem de ninguém.

 

 

 

  • Sobre o autor:

    Norberto Presta: ator, escritor, migrante, sonhador e criador de sonhos.
    Italiano-argentino, atualmente residente entre o Rio de Janeiro e Itália.
    Migrante que há 50 anos viaja entre a América Latina e a Europa, isso produziu e produz experiências a nível humano, artístico e político, que encontram nos contos, na literatura e no seu teatro, um espaço para compartilhar a visão de um mundo rico em pluralidade, com seres que em sua originalidade de alguma forma representam o espírito de uma humanidade que sobrevive apesar de tudo.
    Ator, diretor e autor teatral reconhecido tanto na Europa como em Latinoamérica por suas criações de forte conteúdo político num estilo poético original, que o distingue como um artista
    contemporâneo que se atualiza a si mesmo em cada obra. Ele traz para a literatura a sua experiência de mais de 50 anos de trabalho profissional no teatro.
    Sua incursão na literatura resultou em um corpo diversificado de trabalho que inclui poesia e narrativa. É autor dos livros de haicais e contos Arvolândia e Cachorros Dançantes. Seu romance Tutti i peccati del mondo foi publicado em italiano, espanhol e português. Textos Teatrales - Volumen 1 - Monólogos, Textos Teatrales - Volumen 2 - Cuatro obras para pasar de milenio e Malinche incluem parte de sua produção como dramaturgo.

  • Informações do produto:

    Capa comum: 260 páginas

    Editora Libertinagem: 1ª edição

    São Paulo: maio de 2026

    Formato: 14x21cm

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