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Contos de arroz e feijão para matar a fome, de Carbono NH

Contos de arroz e feijão para matar a fome, de Carbono NH

 

Leia abaixo um trecho de Querido Papai Noel, que compõe o livro

Contos de arroz e feijão para matar a fome, de Carbono NH:

 

Querido Papai Noel,

 

(...)
Nossa, eu enlouqueci mesmo, Papai Noel, entrei na biblioteca e quando dei por mim já estava lendo todas as cartas das crianças e anotando tudo o que tinham pedido, com nome e endereço, pra quê? Nem eu sabia. Estava louca, Papai Noel, muito louca, definitivamente. Quando dei por mim de novo, já estava numa loja comprando tudo que era brinquedo e mandando embrulhar, o que não tinha da lista, pegava um similar e fazia o mesmo, não sei o que tinha acontecido comigo, mas não queria deixar nenhuma criança sem. Sem o quê, meu deus?! Eu não tava nada bem do juízo. Tem fantasia de Mamãe Noel? Tem não, Dona, talvez lá em Tica tu ache. Fui lá e também não tinha. Me mandaram pedir emprestado no Lica e eu fui, no automático. Lá, me viram com aquelas sacolas imensas e nem hesitaram, entregaram logo a bendita roupa.
Vesti, aluguei um carro com som na doida e saí. Bati de casa em casa, as mães atendiam já dizendo logo que não tinham dinheiro. E Papai Noel quer dinheiro? Claro que não, não é mesmo, Papai Noel? Pois mandava chamar os meninos, dava, a cada um, um pacote. O Papai Noel não vem? Não, o bichinho tá doente, pegou gripe, pediu pra eu entregar pra vocês. Os danados batiam na minha mão, desembrulhavam os presentes e saíam felizes da vida a brincar. A mãe, chorando, mais feliz ainda, emocionada, dando obrigado. E eu só dava um abraço. Deus te abençoe! E saia para entregar mais um embrulho, Olha o que Papai Noel te mandou.
Chorei tanto nesse dia, mas era um choro de alegria, porque os meninos tudo riam, e os pais, coitados, choravam, e corria tudo que era menino atrás de mim, e me abraçava, e me dizia obrigado, Mamãe Noel, eu te amo! Fala pro Papai Noel deixar você vir de novo da próxima vez. E o coração todo quentinho, um calor desgraçado já perto de se findar ao ponto que escurecia, e eu pegando nos braços, no colo e tirando foto com uma ruma de criança. Chorei, mais um rio de felicidade. Papai Noel, como deve ser bom ser você.
De noite, Papai Noel, abri minhas cartas, o papel encardido, a letra feia e um monte de desenho que eu nem lembrava mais. Vi os pedidos, as primeiras cartas estavam repletas de leseira, um carrinho com boi, um carrinho de bombeiro, uma motoca, será que um dia eu quis mesmo essas coisas? Li as outras cartas em seguida, bonecas da Barbie, as coisas da Hello Kitty e umas sandálias que as meninas da minha sala calçavam. Que sandálias eram essas? Não faço ideia. Vi que só faltava uma, a última, abri. Querido Papai Noel, você pode me transformar numa mulher, quero ter cabelo grande, usar saia e os vestidos bonitos que as meninas da minha sala usam, mas dizem que eu não posso, por favor, Papai Noel, me ajude, quero ser uma mulher.
Ah, querido Papai Noel, você não podia me transformar numa mulher, porque eu sempre fui uma.

Até mais,
Gabi.

  • Informações do produto:

    São Paulo: Libertinagem

    Maio de 2024

    Formato: 14x21 cm

    Capa comum: 1ª edição

    124 págs

    ISBN978-65-85976-08-4

  • Sobre Carbono:

    Carbono nasceu em Uiraúna-PB, durante a intersecção de touro e gêmeos. Alto astral, porém melancólico, dramático e com um olhar de poeta triste pra vida, considera-se transartivista (e por vezes cientista) aparentemente inofensível. Desde os nove anos de idade tenta encontrar formas de se expressar dentro do teatro, dança, música, prosa e poesia. Foi um dos vencedores do Concurso Novos Escritores da FUNDAJ (2022) e contemplado na 8ª mostra de poesia (CCBNB-Sousa, 2023). Atualmente, reside em João Pessoa, onde cursa Engenharia Química na Universidade Federal da Paraíba, compõe a Comunidade Ballroom Parahybana e pode ser facilmente encontrado em casa, lendo algum livro, resolvendo modelos matemáticos complexos, ouvindo vozes, compondo canções de ódio e escrevendo qualquer coisa dramaticamente cômica sobre a vida.

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